FONTE FOLHA DE SÃO PAULO
Por Carlos Louredo
Livro traz receitas da infância e técnicas de Vinicius de Moraes na cozinha
MARÍLIA MIRAGAIA
DE SÃO PAULO
DE SÃO PAULO
Se não é novidade que as preferências etílicas de Vinicius de Moraes (1913-1980) permearam sua obra, como no trecho supracitado (do livro "Para uma Menina com uma Flor"), a atração pela boa mesa e o talento ao fogão podem surpreender até seus mais dedicados fãs.
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A obra foi idealizada pela filha de Vinicius, Luciana de Moraes (1956-2011), ao tentar reproduzir as ceias de Natal na casa dos avós paternos. Depois da morte de Luciana, Edith Gonçalves, 57, sua companheira por 23 anos, assumiu o projeto ao lado da chef e produtora gastronômica Daniela Narciso, 42.
Responsáveis pela pesquisa e organização, elas debulharam textos, poemas, letras e correspondências com a intenção de "remontar o cenário gastronômico da vida de Vinicius por meio de receitas", diz Daniela.
Buscaram histórias de filhos, amigos e parceiros, como Toquinho, Carlos Lyra e Miúcha. Peça central na pesquisa, dizem elas, foi Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos, 97, a tia "Leta", irmã mais nova de Vinicius. Leta é quem, até hoje, guarda registros das receitas da família, como a carne assada feita por sua avó.
Além de pratos que marcaram a infância do poeta, o livro apresenta preferências gastronômicas quando adulto e as receitas que levavam Vinicius a pilotar o fogão, como o franguinho na cerveja.
| Revista Manchete/Divulgação | ||
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| Vinicius de Moraes na cozinha, em foto sem data |
O livro também conta que no restaurante Tavares, em Belo Horizonte (MG), Vinicius gostava de entrar na cozinha e dar seu toque pessoal aos pratos que pedia.
Tinha uma fórmula especial para que suas "fritas em tamanho família" ficassem sequinhas. E assim queria, mesmo que atrasasse os pedidos do restante da clientela.
EM CASA
Na infância, jura a irmã Leta, foi um menino tranquilo, que nutria verdadeira paixão pela comida servida pelos pais e avós.
Assim, pratos como a carne assada da avó Neném, o vatapá feito pelo vovô Moraes e o cozido preparado pelo pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, foram reunidos no primeiro capítulo do livro, que também abriga as receitas tradicionais do Natal.
São preparos originais ou que foram recriados seguindo instruções da família. Quando fora do país, em turnês ou a trabalho, Vinicius registrava as muitas saudades da comida de casa.
Em carta de 1964, que escreveu a Tom Jobim da França, ele elenca pratos que iria encomendar para sua volta. Menciona, entre outros, "lombinho de porco, bem tostadinho" e papos de anjo.
O doce, é bom que se lembre, é apenas uma das muitas sobremesas apreciadas por Vinicius. O açúcar, entretanto, lhe foi proibido quando diagnosticado com diabetes.
A doença, porém, não o impediu de levar a cabo ataques noturnos à geladeira. Em uma das incursões, conta o livro, esqueceu os óculos no refrigerador. O objeto, assim, se transformou em prova irrefutável do delito.

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