FONTE FOLHA DE SÃO PAULO
Por Carlos Louredo
Livro traz receitas da infância e técnicas de Vinicius de Moraes na cozinha
MARÍLIA MIRAGAIA
DE SÃO PAULO
"Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas
quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém."
Se não é novidade que as preferências etílicas de Vinicius de Moraes
(1913-1980) permearam sua obra, como no trecho supracitado (do livro "Para uma
Menina com uma Flor"), a atração pela boa mesa e o talento ao fogão podem
surpreender até seus mais dedicados fãs.
É dessa paixão pela comida que trata
"Pois
Sou um Bom Cozinheiro", lançamento da Companhia das Letras que chega às
lojas no próximo dia 6. O livro é parte das comemorações do centenário do
nascimento do poeta, em 19 de outubro de 1913.
A obra foi idealizada pela filha de Vinicius, Luciana de Moraes (1956-2011),
ao tentar reproduzir as ceias de Natal na casa dos avós paternos. Depois da
morte de Luciana, Edith Gonçalves, 57, sua companheira por 23 anos, assumiu o
projeto ao lado da chef e produtora gastronômica Daniela Narciso, 42.
Responsáveis pela pesquisa e organização, elas debulharam textos, poemas,
letras e correspondências com a intenção de "remontar o cenário gastronômico da
vida de Vinicius por meio de receitas", diz Daniela.
Buscaram histórias de filhos, amigos e parceiros, como Toquinho, Carlos Lyra
e Miúcha. Peça central na pesquisa, dizem elas, foi Laetitia Cruz de Moraes
Vasconcellos, 97, a tia "Leta", irmã mais nova de Vinicius. Leta é quem, até
hoje, guarda registros das receitas da família, como a carne assada feita por
sua avó.
Além de pratos que marcaram a infância do poeta, o livro apresenta
preferências gastronômicas quando adulto e as receitas que levavam Vinicius a
pilotar o fogão, como o franguinho na cerveja.
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Revista Manchete/Divulgação |
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| Vinicius de Moraes na cozinha, em foto sem
data |
Histórias apetitosas estão distribuídas ao longo das páginas apinhadas de
receitas de "Pois Sou um Bom Cozinheiro". Um dos "causos" revela o apreço do
poeta pela exploração de novas técnicas no preparo dos alimentos. De fazer
inveja ao chef catalão Ferran Adrià, uma de suas descobertas, conta a cantora
Miúcha, era a habilidade de descascar cenouras usando palha de aço.
O livro também conta que no restaurante Tavares, em Belo Horizonte (MG),
Vinicius gostava de entrar na cozinha e dar seu toque pessoal aos pratos que
pedia.
Tinha uma fórmula especial para que suas "fritas em tamanho família" ficassem
sequinhas. E assim queria, mesmo que atrasasse os pedidos do restante da
clientela.
EM CASA
Na infância, jura a irmã Leta, foi um menino tranquilo, que nutria verdadeira
paixão pela comida servida pelos pais e avós.
Assim, pratos como a carne assada da avó Neném, o vatapá feito pelo vovô
Moraes e o cozido preparado pelo pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, foram
reunidos no primeiro capítulo do livro, que também abriga as receitas
tradicionais do Natal.
São preparos originais ou que foram recriados seguindo instruções da família.
Quando fora do país, em turnês ou a trabalho, Vinicius registrava as muitas
saudades da comida de casa.
Em carta de 1964, que escreveu a Tom Jobim da França, ele elenca pratos que
iria encomendar para sua volta. Menciona, entre outros, "lombinho de porco, bem
tostadinho" e papos de anjo.
O doce, é bom que se lembre, é apenas uma das muitas sobremesas apreciadas
por Vinicius. O açúcar, entretanto, lhe foi proibido quando diagnosticado com
diabetes.
A doença, porém, não o impediu de levar a cabo ataques noturnos à geladeira.
Em uma das incursões, conta o livro, esqueceu os óculos no refrigerador. O
objeto, assim, se transformou em prova irrefutável do delito.